A IGREJA NO NORDESTE: BREVES NOTAS HISTÓRICO-CRÍTICAS

Cláudio Perani

Resumo


Na ocasião dos 15 anos dos Cadernos do CEAS não podiam faltar algumas considerações sobre a Igreja, uma vez que a nossa revista sempre tratou esse tema procurando apresentar e discutir as novidades e os impasses da pastoral popular. A referência ao Nordeste é inevitável. Nessa região operou-se uma profunda mudança da Igreja, antes e depois de 1964, influenciam o com isso a pastoral do Brasil inteiro. A situação de extrema exploração, revelando o abismo existente entre o pequeno grupo da burguesia dominante e a massa dos trabalhadores oprimidos, deve certamente ter contribuído para essa transformação. Essa situação reforça a necessidade de participação comunitária nas decisões, de forma articulada com os educadores, como único caminho para o povo exercer um direito que lhe está sendo subtraído - o direito à educação pública e gratuita. As causas são várias e complexas. Desejamos somente salientar o avanço da Igreja nestes últimos anos, para depois tecer algumas considerações críticas. Sempre houve certa solidariedade da Igreja com os latifundiários e uma grande preocupação com o próprio rebanho. Gregório Bezerra conta nas suas Memórias um problema surgido com o bispo de Pesqueira no ano de 1960: "Iniciara-se um período de seca e o campesinato pobre do agreste e do sertão entrou a passar fome. O bispo conseguira uma grande quantidade de charque e gêneros alimentícios (feijão, farinha, milho, leite em pó) e ia distribuir os donativos à massa flagelada; mas só queria salvar o corpo dos que já tinham a alma garantida, isto é, só queria dar alimentos aos que confessavam e comungavam. Isso provocou enérgicos protestos. Sua Eminência recuou, mas tratava-se de um recuo tático, limitado: passou-se a fazer discriminação na quantidade, de maneira que os católicos recebiam mais e os não-católicos recebiam menos. (...) O bispo de Pesqueira passou a atacar ainda mais furiosamente a liga camponesa e o ‘agente do imperialismo russo Gregório Bezerra’. Precisamos contratacar e desmascarar o ilustre prelado como instrumento consciente dos latifundiários".1 Na caminhada, a Igreja abriu-se para o povo e para um ecumenismo abrangente. Pe. Edgar Carício de Gouveia, vigário de Igarapeba-Pe, afirmava em 1963: "E melhor a gente estar com as massas do que com um pequeno número de pessoas poderosas. O pequeno número vem depois". Mais tarde, em 1968, Pe. Antônio Henrique Pereira Neto, assassinado pela repressão no Recife, dá seu depoimento: "A minha tarefa básica é a reconciliação, que deve prescindir da religião, e levar as pessoas a uma maior autenticidade (...). É uma ação sem manchetes nem fachadas; não pretendo trabalhar nas cúpulas: acredito nas coisas de base (...). Nunca fui escolhido pelo bispo, nem acho isso importante. Fui escolhido pelo povo, os estudantes com quem convivo diariamente (...). Mantenho entre a juventude um contato permanente com pessoas de outras crenças e religiões: protestantes, judeus, espíritas e ateus. A missa que celebro é ecumênica; mesmo os que não são cristãos se sentem de tal maneira a comungar também (...) Os setores de esquerda apenas se opõem aos cristãos que não têm uma fé comprometida com a vida". Dos latifundiários para as massas trabalhadoras, de posições ferrenhamente anti-comunistas para comportamentos ecumênicos: é uma caminhada de Igreja não sempre retilínea e homogênea, muitas vezes revelando um movimento pendular com avanços e recuos, mas certamente produzindo novidades concretas que modificaram a presença da Igreja na realidade nordestina. Exemplo dessa mudança pode ser considerado o encontro das Comunidades Eclesiais de Base realizado em Canindé-CE, de 4 a 8 de julho de 1983. Apesar de ser um encontro nacional, a presença nordestina, sobretudo de estados como Maranhão e Ceará onde faz tempo existem as CEBs, foi marcante, revelando uma nova face da Igreja. Esta novidade, sintetizada na famosa frase "opção pelos pobres", consiste numa abertura da Igreja para as massas marginalizadas e, conseqüentemente, para uma vivência de fé mais ligada à problemática da justiça nas relações sócio-econômico-políticas entre os homens. Em Canindé o povo do campo, das periferias urbanas e das fábricas estava presente, prova concreta de uma caminhada de conversão que não ficou nos documentos bonitos, mas que conseguiu dar frutos. Reconhecido isso e a partir deste dado de fato, as notas seguintes querem ser mais questionadoras. E conhecida a dificuldade que a Igreja tem em fazer auto-crítica. O auto-envolvimento impede também aos cristãos comprometidos na pastoral ter, para seu próprio trabalho, o mesmo olhar crítico que existe em relação à Igreja institucional ou a outros movimentos sócio-políticos. A perspectiva do artigo quer ser a do evangelho: "Por quê olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?". Para isto pode ajudar uma panorâmica histórica limitada ao período que imediatamente precedeu a 1964. Naquela época lançaram-se sementes que frutificaram mais tarde em direções diferentes, mas cujas raízes já estavam presentes. A problemática da Igreja antes de 1964 pode iluminar os problemas que hoje estamos vivendo.

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