A GREVE DOS BÓIAS-FRIAS EM SÃO PAULO

Cláudio Perani

Resumo


No dia 15 de maio de 1984, a pequena cidade de Guariba, com 25 mil habitantes, situada na região da cana de Ribeirão Preto - São Paulo, foi invadida por uma multidão de mais de 1.000 bóias-frias. Incendiaram e demoliram dois prédios da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), atearam fogo a três veículos da mesma e saquearam um supermercado. Os bóias-frias tinham entrado em greve. Os caminhões dos "gatos" foram recolher em vários pontos da cidade cerca de 10 mil trabalhadores rurais para conduzi-los às usinas, mas os motoristas eram obrigados a parar por causa dos piquetes. Um dos canaviais da Usina São Carlos foi incendiado. A Polícia Militar, com cerca de 200 homens, chegou jogando bombas de gás lacrimogêneo; houve tiroteio com um morto (Amaral Vaz Meloni de 49 anos, aposentado) e 29 feridos. Também a Polícia Federal esteve presente. Dois motivos imediatos contribuíram para a revolta dos trabalhadores rurais. O principal foi a decisão dos usineiros de mudar o sistema de corte de cana de açúcar estabelecendo 7 ruas ao invés de 5 como era antes. Com isso o trabalhador era obrigado a carregar a cana cortada até os montes, diminuindo sua produção. Pelo sistema de 5 ruas chegava a colher 150 metros por dia, enquanto pelo de 7 esse rendimento caía para 90 metros. A outra causa foram os constantes aumentos das taxas de água. Na véspera da revolta houve novo aumento, totalizando 900% em um ano. Os bóias-frias reuniram-se em assembléia e apresentaram 21 reivindicações, na maioria atendidas pelos usineiros depois de três dias de greve. "Foi uma grande vitória de todos os trabalhadores rurais", conforme explicou muito emocionado o bóia-fria Caetano Faria dos Santos. Clemência Dias Pereira estava radiante: "Ontem a noite dormi tão tranqüila que cheguei a sonhar". E outro trabalhador: "Eu não me contive. Chorei de emoção. Era um nó que estava 25 anos na garganta".

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