A DISPERSÃO E AS RESISTÊNCIAS NA (DA) AMÉRICA LATINA: A MIMESE CALIBAN

Gey Espinheira, Álvaro Gomes

Resumo


Nesses últimos anos temos trazido as reflexões do Instituto de Estudo e Ação pela Paz com Justiça Social (Iapaz) ao Fórum Social Mundial (FSM) e aos encontros locais e regionais que o preparam a cada ano, sob o nosso lema “Paz só com Justiça Social”. A ênfase na paz não é só um desejo e uma esperança, é a busca de um antídoto para a violência do mundo contemporâneo – já que é somente neste que podemos intervir – em estado de guerra, sobretudo depois da implementação da estratégia de guerra permanente proposta pelos Estados Unidos (que, aliás, não é de agora!) em nome do “choque de civilizações” (Huntington, 1997), da tirania do Ocidente sobre o mundo, particularmente o Oriente islâmico, em que o estrategista de Washington declara abertamente em relação aos muçulmanos: Parece-me altamente prioritário que europeus e americanos reconheçam o que têm em comum e tentem elaborar uma estratégia para lidar de forma compartilhada com a ameaça que o islamismo militante representa para suas sociedade e para sua segurança A ideologia do Ocidente há muito foi elaborada e pôs suas estratégias em prática, das Cruzadas à expansão marítima dos impérios europeus, e sob a bandeira do cristianismo, pretexto extraordinário para justificar relações de comércio e exploração, como foram os casos dos impérios português e espanhol (cf. Lima, 2003). Mas é importante ver a observação de Weber (1983: 1) no início da “Introdução” ao seu estudo sobre a ética protestante, destacando a combinação de fatores “a que se pode atribuir o fato de, na Civilização Ocidental, e somente na Civilização Ocidental, haverem aparecido fenômenos culturais dotados (como queremos crer) de um desenvolvimento universal em seu valor e significado”. O Ocidente se quis universal e, como tal, submeter o resto do mundo. Na versão contemporânea, a situação é posta como “choque de civilizações”, e isso justificaria a “guerra justa” e o “estado de guerra permanente” em nome do combate ao terrorismo. Internamente ao Brasil, nossa preocupação se volta para a violência, urbana e rural, configurando uma realidade mortal que faz do país o mais violento do mundo sem estar em guerra ideológica declarada, no embate da criminalidade com as forças de segurança; da criminalidade da segurança institucional contra a sociedade; nas disputas de territórios do tráfico de drogas e do jogo de azar; da exploração sexual, enfim, de tudo o que decorre da corrupção que corta transversalmente o país, na universalidade das classes sociais e de seus espaços geográficos. É, sobretudo, a juventude brasileira, a mais pobre, a mais negra, a mais excluída, a maior vítima de homicídios e outras formas de violações dos direitos humanos. Por isso, justiça social como condição para a paz e a paz como um pacto social civilizado, não de harmonia e quietude, mas de inquietude e criatividade, efervescência da heterogeneidade social e cultural de seu povo. Por isso: paz só com justiça social, e justiça social como prioridade e razão de todas as lutas de emancipação das classes subalternas e uma nova visão de mundo cosmopolita, apoiada no desejo e na ação das multidões e na rebeldia da gente comum. Fazemos esta Oficina sem a presunção científica, tampouco a pretensão de ter ido ao fundo das discussões dos autores abordados. Aceitamos o tempo e o lugar, portanto, as limitações de uma oficina de reflexão sobre a América Latina, confessando que o nosso principal objetivo é jogar com antagonismos e inquietações e não com verdades e certezas. Por isso mesmo, trabalhamos em dois campos da realidade: o da teoria das ciências sociais (sociológica, histórica e política) e o da ficção, sendo que esta última totaliza as demais, sem as tradicionais fronteiras dos métodos e dos departamentos que as abrigam. Na concepção de Lima (2003: 18), o texto ficcional, em vez de dar as costas à realidade, a dramatiza e metamorfoseia; a ficção converte em volume e descontinuidade o linear com que, na vida cotidiana, dispomos o mundo; o mundo, isso que está aí; a ficção transtorna as dimensões do mundo, em vez de pôr o mundo entre parênteses Sem sermos conclusivos nem almejar um fim, é um botar de lenha na fogueira para aquecer nossos corações e fazer aflorar a não-identidade sob a identidade que nos vela, como o retirar o véu que vela, como diria Heidegger (2001: 28) ao falar do desencobrimento. E vale citá-lo mais propriamente a respeito da liberdade: A liberdade do livre não está na licença do arbitrário nem na submissão a simples leis. A liberdade é o que aclarando, encobre e cobre, em cuja clareira tremula o véu que vela o vigor de toda a verdade e faz aparecer o véu como o véu que vela. A liberdade é o reino do destino que põe o desencobrimento em seu próprio caminho É isso aí! Vamos ao trabalho de desencobrimento, lembrando o que nos disse John Holloway (2003: 9-11): “O pensamento nasce da ira, não da quietude da razão”. E mais: “Não necessitamos da promessa de um final feliz para justificar a nossa rejeição a um mundo que sentimos estar equivocado”. Somos gente comum, somos rebeldes!

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